ENTREVISTA
conhece a fundadora

maria lima: fundadora da
hey kay

Maria Lima, fundadora da Hey Kay

Seis anos e uma marca de sucesso depois, Maria Lima sentiu vontade de voltar a criar algo novo: um refrigerante, mas não daqueles a que estamos habituados.

Hey Kay: Estudaste arquitetura e depois foste produtora de moda em Londres.
Como é que isso te levou a fazer bebidas?

Maria Lima: Tirei o curso de arquitetura em Portugal, mas ainda na faculdade percebi que desenhar casas não era a minha vocação. Mudei-me para Londres para fazer um mestrado em Produção de Moda, e fiquei lá a trabalhar numa produtora de moda. A certa altura, senti que o meu tempo em Inglaterra tinha acabado e que precisava de descobrir algo novo. Numa viagem a Bali, em 2017, provei kombucha pela primeira vez. Nunca tinha ouvido falar. Voltei para o Porto ainda a pensar nisso, comecei a experimentar receitas na minha cozinha, e os lotes foram ficando melhores à medida que as pessoas me pediam mais. Em poucos anos, troquei as provas de roupa e os calendários de produção por uma fábrica, e criei uma marca de kombucha: a Aquela Kombucha. Depois de seis anos a fazê-la com orgulho, senti necessidade de fazer algo novo: um refrigerante, mas não o refrigerante a que estamos habituados.

HK: A kombucha é viva e exige paciência. E um refrigerante, exige o quê?

ML: Nada me deu tantas lições de paciência como a kombucha. Num verão, uma onda de calor apanhou o Porto enquanto estávamos de férias e perdemos cerca de mil litros: quando voltámos, o lote tinha-se praticamente cozinhado. Com uma cultura viva, não és tu quem decide, e a paciência deixa de ser uma virtude para passar a ser uma questão de sobrevivência. Ainda hoje tenho um post-it na secretária que diz "tudo tem solução". Um refrigerante exige outra coisa: precisão. Foram quase dois anos de testes até a receita ficar certa, porque tem de saber bem à primeira, nos dias em que só te apetece abrir uma lata e seguir em frente. A kombucha ensinou-me a esperar. A Hey Kay ensinou-me a acertar.

HK: Calm, Reset, Energy. Como é que chegaste a estes três sabores em específico, e não a cinco,
ou apenas um?

ML: Sinceramente? Estava cansada de fingir que tinha tudo sob controlo. Só queria algo que me ajudasse a passar o dia: preciso de me acalmar antes de uma chamada, de fazer um reset depois de um dia que correu mal, e depois de encontrar energia para realmente fazer as coisas acontecerem. Três estados de espírito pareciam honestos. Apenas um sabia a pouco, a vida é mais complexa do que isso, mas mais de três sabores seria complicar algo que deve tornar a vida mais simples, e não acrescentar-lhe mais ruído.

HK: O que é um adaptogénio, e porque é que a Hey Kay os tem?

ML: Os adaptogénios são ingredientes naturais, essencialmente cogumelos e plantas usados há milénios para ajudar o corpo a lidar com o stress. Não são medicamentos, são mais um apoio: ajudam na resposta do corpo ao stress e a manter o equilíbrio mental. Sem picos nem quebras, e por isso a energia, o foco e a recuperação ganham todos um pouco ao mesmo tempo. A Hey Kay usa em todas as latas lion's mane (juba de leão) e reishi, que são dois extratos de cogumelos adaptogénios. O lion's mane (juba de leão) é conhecido por apoiar o foco e a clareza mental. O reishi apoia a calma e ajuda o corpo a recuperar daquele stress do dia-a-dia que se vai acumulando sem darmos por isso. Pensa neles como um bom hábito, que faz diferença com o tempo, tal como dormir bem ou beber água suficiente. Eu queria que o "smart" de smart soda significasse mesmo alguma coisa, e não fosse só mais uma palavra na lata.

HK: O que torna a Hey Kay diferente dos outros refrigerantes?

ML: Os adaptogénios são uma parte, mas não a única. A Hey Kay é uma bebida natural, com uma fórmula pura e sem ingredientes duvidosos, como corantes artificiais ou conservantes. Tem também muito poucas calorias, só 22 por lata, e não leva açúcar de cana. A doçura vem de uma mistura de sumo de maçã natural e stevia, por isso ela sabe ao que um refrigerante deve saber, sem o açúcar que costuma trazer.

HK: O universo visual da Hey Kay é muito anos 2000. De onde vem isso?

ML: Da nostalgia, sobretudo. Cresci com a MTV sempre ligada na TV, posters de revistas colados na parede e um Motorola cor-de-rosa de abrir que eu adorava. Nessa altura, tudo parecia mais leve. Hoje em dia há esta expectativa constante de termos tudo sob controlo e, na maior parte dos dias, não tenho. Por isso mesmo acho que uma parte de mim queria que a Hey Kay trouxesse essa época de volta. Um bocado cor-de-rosa, sem se esforçar demasiado para ser levada a sério. No fundo, é uma lata de Hey Kay vestida de memória de adolescente. I’m just a girl on a journey, e a minha viagem tem, por acaso, muito cor-de-rosa.

HK: O setor das bebidas está a mudar. Bebe-se cada vez menos álcool, da geração Z aos boomers.
Como vês esta mudança?

ML: Acho que já vinha tarde, e não vai abrandar. Durante anos, num bar ou numa festa, a única opção "de adulto" era o álcool ou alguma coisa carregada de açúcar, como se não houvesse nada pelo meio. As pessoas estão a perceber que podem ter um copo a sério na mão, uma bebida com algum ritual, sem uma ressaca correspondente na manhã seguinte. Finalmente estão a aparecer alternativas sem álcool mais interessantes, e a Hey Kay ocupa exatamente esse espaço. Não quer substituir um cocktail: quer ser uma bebida que escolhes porque te apetece mesmo, e não porque é o que sobra quando dizes que não a tudo o resto.

HK: O que gostas de fazer nos teus tempos livres?


ML: Fui uma verdadeira "party girl" durante todos os meus 20s. Hoje em dia adoro genuinamente ficar em casa e ter o meu tempo. Ioga e pilates para praticar desporto, cozinhar como terapia e não apenas para comer. E depois há o meu pequeno jardim zoológico: três gatos, o Mimo, a Jóia e o Kombu, e uma cadela, a Veggie. Teria facilmente mais vinte, mas acho que para já isto é caos suficiente.

HK: Que comida te faz feliz?

ML: Maioritariamente vegetariana. Massa é o meu ponto fraco! Podia comer quatro vezes por semana sem me fartar. Também faço o meu próprio pão sempre que tenho tempo. Há algo em todo o processo de confecionar pão: a espera, o amassar, que se parece muito com fermentar kombucha. Lento, um bocado teimoso, mas vale a pena no fim. Mas não sou picuinhas: há noites em que o jantar é simplesmente o que sobrou no frigorífico.


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